A cultura do “quanto mais barraco, melhor” –


Por MARCIO DOS SANTOS*

O BBB mostra que a habilidade de nos relacionarmos socialmente de forma assertiva vem enfrentando sérios problemas

1.

Na semana passada me deparei com duas situações que me fizeram lamentar a natureza humana e questionar sobre o que está acontecendo com a habilidade primordial que todos nós temos de socializar, de procurar viver em um mundo diverso, respeitando as respectivas diferenças, sociais, econômicas, de credo e etc. A primeira delas ocorreu na segunda-feira, dia 24 de março quando uma aluna da educação de jovens e adultos – e aqui por questões éticas oculto o nome da mesma – sentiu-se injustiçada quando troquei de última hora a data de apresentação de um trabalho para avaliação bimestral.

A mesma argumentou estar presente a aula naquele dia apenas para a apresentação, que havia passado o dia inteiro no hospital e que mudar a data da apresentação não seria correto. Imediatamente me coloquei no lugar da aluna e, muito embora tenha preparado uma aula sobre uma questão que eu considerava mais emergente, reconheci seus protestos e disse a aluna que ela estava autorizada a apresentar o seu trabalho e seguir o cronograma de apresentações, imaginando que assim resolveria o problema.

Qual não foi a minha surpresa quando a mesma se negou a apresentar o trabalho e saiu da sala, e provavelmente até mesmo da escola indignada. Logo após, soube da conversa que a aluna travou com a direção da escola dizendo que queria dar baixa na sua vaga. Entendi muito menos e só o que pude pensar foi na questão referente a: “tomar veneno esperando que o outro morra”. Nesse instante compreendi que o problema era muito maior do que se apresentava.

Há algumas semanas em uma reunião de Atpc, uma diretora da escola começou a falar sobre o problema da falta dos professores e do abandono dos alunos. Quando levantei a mão procurando entender qual relação existia entre causa e efeito, ou qual seria o trabalho acadêmico no qual se baseava a diretora para fazer tal relação, a mesma respondeu apenas: “Só um minuto, querido” e continuou o monólogo até o fim da reunião.

Na semana passada aproximadamente 20 dos 90 dirigentes de ensino de várias diretorias perderam os seus cargos como podemos ver na reportagem do portal O Globo. A gestão Tarciso pensando no próximo pleito eleitoral tem visto na educação uma possível vitrine para as próximas eleições. A cobrança por resultados vem de cima para baixo. Hora são os dirigentes, hora os diretores, e esses responsabilizam os professores, mas ao que parece fica difícil enxergar a questão quando nos questionamos sobre as próprias políticas de educação do governo estadual.

Tarcísio de Freitas e seu secretário da educação Renato Feder plataformizaram o ensino público paulista. Sobram assédio moral e abuso de poder na escola por parte de pessoas que estão em situação de direção, mas que podem retornar para as salas de aula a qualquer momento, já que grande parte dos diretores das nossas escolas são designados.

2.

O Big Brother Brasil é um realty show brasileiro transmitido anualmente na rede Globo pelo menos desde o início dos anos 2000. Como noticia o site Terra, na segunda-feira dia 17 de março o programa registrou uma média de aproximadamente 17 pontos de audiência. Os fatores que determinam a quantidade de domicílios e de pessoas que assistem ao programa e que correspondem a cada ponto varia, mas em média, como observado no portal Notícias da TV 1 ponto de audiência no dia primeiro de janeiro de 2023 passou a significar 268.83 domicílios, ou 717.088 indivíduos. Mesmo com a perda de audiência da mídia tradicional para a internet e os serviços de streaming, dezessete pontos na audiência ainda atingi muita gente.

Mas, o que a aluna que se sentiu injustiçada com a mudança repentina da data de apresentação do trabalho, a diretora da escola que assumiu a propriedade privada da palavra e o BBB tem em comum? Me parece que a habilidade de nos relacionarmos socialmente de forma assertiva vem enfrentando sérios problemas, e não por conta exclusiva do programa global, mas por várias razões, restando aqui uma breve observação sobre o “reality” que para o bem social, ainda não encontra similar na realidade social brasileira, talvez por pouco tempo.

Não é intenção minha minimizar o nível de cognição do brasileiro ou das pessoas que consomem esse tipo de produto, mas precisamos encarar alguns fatos que me soam perturbadores. No 17 de Março, portanto uma segunda-feira, que registrou o maior índice de audiência dessa edição do programa, o quadro apresentado era o famigerado “sincerão” onde os participantes se atacam e se ofendem todos falando “verdades” e mostrando que não “tem medo de se posicionar”.

Importante dizer que nesse quadro não há espaço para ponderações, o objetivo é atacar o outro e ser atacado. O nome do quadro esquece que ser sincero não é ser ofensivo. Porque os participantes não podem aproveitar a sinceridade para enaltecer os laços fraternos e de amizade que conquistaram no programa? Por que a lógica do programa tem que ser as brigas e intrigas e não o bom relacionamento entre os “aliados” no jogo?

A lógica do “quanto mais barraco, melhor” e a do “falo a verdade mesmo que isso te humilhe” tem se espalhado por toda parte. A comunidade tem se colocado contra a escola. Frequentemente tenho ouvido impropérios na secretária da escola contra alguém que, no exercício da função está apenas servindo a comunidade, e que, não fosse a grade que separa o público da profissional, imagino que os conflitos terminariam de modo mais violento.

Há alguns dias um pai revoltado com um professor discutiu com ele em pleno horário de aula, apontando o dedo na cara do professor, e repetindo que “Ele ganha muito mais do que ele e que a escola é um lixo”. Coisa, aliás, que nós professores estamos habituados a ouvir. A aluna que, indignada, começou uma discussão por conta da mudança da data de apresentação do trabalho, não tinha como interesse último a resolução do problema, mas apenas expressar a sua indignação.

Fosse o contrário, teria compreendido que o problema foi resolvido no momento em que abandonei meus planos de trabalhar a questão que eu considerava pertinente naquele momento e me propus a respeitar a data da apresentação. Na cultura do “ataco por que tenho razão”, “Cale-se porque só importa o que digo” ou “você não tem lugar de fala” ou pior “Faço barraco mesmo porque sou assim”, estamos perdendo uma importante habilidade evolutiva; a socialização. Resta saber a quem interessa uma sociedade na qual os indivíduos se colocam em uma luta do todos contra todos?

*Márcio dos Santos é professor de história da Secretaria da Educação de São Paulo.

Referências


GOMES, Karolayne, NEVES, Manoella e PEREIRA, Deriky. O poder dos influenciadores digitais sobre a sociedade do consumo por meio do instagram. Intercom. XXI congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste.

https://www.terra.com.br/diversao/tv/reality-shows/mesmo-com-barracos-e-ex-participantes-bbb-25-nao-vai-bem-na-audiencia,89bb4dafd0cb2eb60b8299e60834170fvgt5jqpj.html

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/saiba-quanto-um-ponto-no-ibope-vale-partir-de-1-de-janeiro-de-2023-95141 https://pepsic.bvsalud.org/pdf/pac/v7n2/v7n2a01.pdf

https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/noticia/2025/03/20/gestao-tarcisio-decide-trocar-de-uma-so-vez-20-dos-91-dirigentes-das-diretorias-de-ensino-de-sp.ghtml


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