A inteligência artificial vai piorar as mudanças climáticas?


Na medida em que os data centers, essenciais para a vida digital, se multiplicam, as emissões de carbono do setor tecnológico aumentam. Já os defensores da inteligência artificial (IA) dizem que a tecnologia pode, na verdade, ajuda a diminuir o volume de poluentes na atmosfera.

Há muito em jogo: até 2025, espera-se que o setor consuma 20% da eletricidade produzida em todo o planeta e seja responsável por 5,5% do total das emissões de carbono. Além disso, a proliferação de utilizações e aplicações cada vez mais exigentes em termos de energia irá provavelmente acelerar ainda mais esse ritmo.

Logo do ChatGPT, inteligência artificial generativa da OpenAI Foto: Dado Ruvic/ Reuters

“A caixa de Pandora está aberta”, reconhece Arun Iyengar, executivo chefe da Untether AI, empresa que busca fabricar semicondutores de baixo consumo de energia para IA. “Podemos usar a IA para melhorar as aplicações e torná-las compatíveis com os requisitos climáticos. Ou não fazer nada e sofrer as consequências”, diz.

A transformação dos servidores de dados do mundo para estarem prontos para a inteligência artificial está em andamento. Esse é um processo que um executivo do Google chamou de “ponto de inflexão computacional que ocorre uma vez em uma geração”.

Corrida pela eficiência energética

O desenvolvimento de ferramentas generativas de IA, como o chatbot GPT-4, base do sucesso do ChatGPT, ou o Palm2 do Google, para Bard, envolve duas etapas, ambas com alto consumo de energia. Uma delas é a a etapa de “treinamento”; a outra é a fase de execução.

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Pesquisadores da Universidade de Massachusetts (EUA) que testaram essas ferramentas em 2019 descobriram que o treinamento de um único modelo de IA pode ser responsável por uma quantidade de emissões semelhante à de cinco carros ao longo de sua vida útil.

Um estudo mais recente do Google e da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) estimou que o treinamento do GPT-3 emitiu 552 toneladas de emissões de carbono. A quantidade se assemelha às emissões de um automóvel que dirige por dois milhões de quilômetros.

O modelo de próxima geração da OpenAI, GPT-4, é treinado com cerca de 570 vezes mais parâmetros (ou entradas) do que seu antecessor. A escala destes sistemas só aumentará na medida em que a IA se tornar mais poderosa e onipresente.

No centro desse desenvolvimento estão os processadores gráficos, ou GPUs, que consomem muita energia, fabricados pela multinacional de tecnologia Nvidia.

Uma vez concluído o treinamento, a utilização de ferramentas generativas de IA pela nuvem também requer energia por meio do consumo atrelado às solicitações recebidas. E esse gasto supera, em muito, o de treinamento.

No entanto, uma vez que já não são necessários processadores potentes para servidores em nuvem, as empresas poderiam optar por soluções mais ecológicas.

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Amazon Web Service (AWS), Microsoft e Google, os principais players da nuvem, afirmam querer reduzir seu consumo de energia.

A AWS anunciou que tem como objetivo a neutralidade de carbono até 2040, enquanto a Microsoft pretende ser “uma empresa com zero desperdício e zero emissões” até 2030.

Entre 2010 e 2018, o consumo de data centers em todo o mundo aumentou 6%, apesar de a sua utilização ter aumentado 550%, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

Aquecimento global

Aqueles que promovem as ferramentas de IA não veem a pegada de carbono delas como um problema. “Quando tivermos uma superinteligência realmente poderosa, enfrentar o aquecimento global não será muito difícil”, disse Sam Altman, fundador da OpenAI (ChatGPT).

“Isso mostra o quão grande devemos sonhar. Imagine um sistema onde você possa perguntar: ‘como produzir muita energia limpa e barata, como capturar carbono de forma eficiente e como construir uma fábrica que possa fazer isso em escala global’”, exemplifica Altman.

Sam Altman, criador do ChatGPT e CEO da OpenAI Foto: Alastair Grant/AP

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O diretor da Nvidia, Jensen Huang, acredita que a implementação massiva de IA e a maior velocidade das ferramentas computacionais podem acabar provocando redução na demanda pela nuvem e, portanto, no consumo do setor. Graças à inteligência artificial, laptops, smartphones e carros podem se tornar supercomputadores de baixo consumo de energia que não precisam recuperar dados da nuvem.

“No futuro, você terá um processador minúsculo em seu telefone e 90% dos pixels serão gerados. Os 10% restantes serão obtidos online, em vez dos 100% atuais. Então, você consumirá menos”, afirmou Huang.

Alguns especialistas, no entanto, acreditam que a corrida precipitada para a IA desvia a atenção dos riscos ambientais. “Atualmente, as grandes empresas gastam enormes quantias para implantar a IA. Não creio que ainda estejam preocupadas com o impacto ambiental. Mas penso que essa hora chegará”, diz Arun Iyengar./AFP


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