
O cardiologista Antonio Mendes Pereira não precisaria ter feito muito para manter a tradição de seu sobrenome. Mas fez. Cuidou tanto da saúde de pessoas influentes quanto de anônimos, como detentos e indigentes. Sem o jaleco branco, incentivou esporte e cultura.
Nascido em Jundiaí (a 58 km de São Paulo), distanciou-se do município poucas vezes, principalmente para estudar. Fez graduação na PUC em Sorocaba (também no interior paulista) e especialização na Escola Paulista de Medicina, na capital.
Mas sempre voltava para preservar as raízes fincadas pela família —seu avô, militar e político influente entre nos séculos 18 e 19, dá nome a uma das principais vias de acesso ao centro da cidade, a rua Coronel Boaventura Mendes Pereira.
O médico trabalhou no Hospital Filantrópico São Vicente de Paula, o principal com atendimento público da cidade.
Costumava tirar o estetoscópio do pescoço para ouvir o coração de quem precisasse. “Meu pai tinha um lado humanista muito forte”, diz o advogado Rodrigo Mendes Pereira, 57.
Também lecionou na Faculdade de Medicina de Jundiaí e com um grupo médico fundou um dos principais hospitais daquela região do estado, o Paulo Sacramento.
O discurso de inauguração, lido por ele, foi escrito pelo linguista Carlos Franchi, da Unicamp (Universidade de Campinas), lembra Rodrigo, que está estudando a história da família para colocar em um livro.
Na publicação, o filho poderá contar que o pai foi durante cerca de 25 anos médico na Cica, marca de produtos alimentícios que mantinha fábrica na cidade.
No final da década de 1980, um diretor pediu a ele a opinião sobre um legado que a empresa poderia deixar à cidade. O doutor, fanático por esportes, não teve dúvidas: um time campeão.
Nascia o Cica/Divino, uma das mais fortes equipes de basquete feminino do país na época —Mendes Pereira foi um dos responsáveis pela contratação da principal estrela da equipe, a armadora Magic Paula.
Das cestas para o gol, o médico gostava de assistir a um bom futebol, principalmente se o Palmeiras estivesse em campo, ou o Paulista, clube de Jundiaí da qual fez parte da diretoria.
Cinéfilo, Mendes Pereira mantinha em um cômodo de seu apartamento cerca de 4.000 títulos de filmes –em outro, guardava 3.000 livros.
O médico costumava levar seus vídeos para a Associação dos Aposentados, onde organizava sessões de cinema grátis para idosos.
Ainda nos tempos de faculdade, conheceu a professora Marly, com quem foi casado por mais de meio século. No fim da vida da companheira, vítima de Alzheimer há 13 anos, abriu mão de sua vasta atividade profissional e social para cuidar da mulher —era hora de ficar integralmente com a paixão de sua vida, costumava dizer.
Médico experiente em coração, nos últimos tempos alertava a família que sua insuficiência cardíaca poderia fazê-lo partir em breve. “Ele me deu a mão antes de falecer”, conta o filho.
Antonio Mendes Pereira morreu no último dia 30 de outubro, aos 87 anos. Deixou os filhos Antonio Neto, Rodrigo e Cláudia, além de dez netos.
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