Da geografia à música: professores maranhenses investem na educação antirracista e trabalham a cultura afro-brasileira em sala de aula


Projetos antirracistas realizados no IEMA (à direita) e na UEMA (à esquerda) — Foto: Montagem/g1

Projetos antirracistas realizados no IEMA (à direita) e na UEMA (à esquerda) — Foto: Montagem/g1

A educação antirracista é um dos pilares fundamentais no combate ao racismo estrutural, atuando na valorização da cultura e da história do povo negro. Em São Luís, esse tipo de ensino tem sido colocado em prática por professores, que buscam por meio da geografia e da música, desconstruir preconceitos.

No Dia da Consciência Negra, comemorado nesta segunda-feira (20), o g1 conheceu dois projetos antirracistas realizados em instituições de ensino na capital, com ações voltadas para a valorização de comunidades quilombolas do estado e das tradições musicais afro-maranhenses.

Empoderamento de estudantes negros

Aula do projeto “Intercâmbio e Cultura: uma análise entre os Quilombos Damásio e Liberdade (MA)” — Foto: Arquivo pessoal

Aula do projeto “Intercâmbio e Cultura: uma análise entre os Quilombos Damásio e Liberdade (MA)” — Foto: Arquivo pessoal

A professora Jacenilde Cristina Braga, de 34 anos, transformou a disciplina de geografia em uma ferramenta para empoderar e acolher estudantes negros e quilombolas do Instituto Estadual de Educação Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA), da área Itaqui-Bacanga.

Por meio do projeto “Intercâmbio e Cultura: uma análise entre os Quilombos Damásio e Liberdade (MA)”, os alunos do ensino médio conheceram o processo histórico das comunidades quilombolas do estado, além das relações culturais existentes entre elas.

Segundo Jacenilde, o projeto teve duas fases. Na primeira, foram aplicadas tecnologias educacionais digitais para facilitar o processo de aprendizagem, enquanto a segunda fase contou com uma visita aos quilombos Damásio, no município de Guimarães, e Liberdade, em São Luís.

Visitação dos alunos às comunidades quilombolas Guimarães e Liberdade — Foto: Montagem/g1

Visitação dos alunos às comunidades quilombolas Guimarães e Liberdade — Foto: Montagem/g1

“Na primeira fase foi realizada na disciplina eletiva ‘Aquilombar’, com a análise do processo histórico e cultural das comunidades quilombolas. Para melhor compreensão dos alunos, foram aplicadas metodologias ativas como a sala de aula invertida aliada à gamificação. Na segunda fase, os estudantes entenderam as relações culturais entre as comunidades quilombolas”, disse Jacenilde em entrevista ao g1.

A educadora conta que a visitação foi essencial para os estudantes aprenderem a importância da diversidade cultural, assim como a respeitá-la.

“Os estudantes envolvidos demonstraram uma dedicação impressionante, com entusiasmo e determinação. Além do sucesso acadêmico, o projeto proporcionou aos alunos a importância de ouvir e aprender com as comunidades quilombolas”.

Jacenilde também costuma não se “limitar” ao livro didático durante suas aulas de geografia, pois, segunda ela, a cultura contada no ambiente escolar ainda é centralizada na “dominante”. Por isso, a professora busca desenvolver atividades mais dinâmicas, que valorizam a história e as tradições africanas.

“Nas aulas de geografia, juntos com os alunos, analisamos sempre o continente africano, destacando suas características culturais, ambientais, econômicas e religiosas”.

Aula prática da professora Jacenilde Cristina, em São Luís — Foto: Arquivo pessoal

Aula prática da professora Jacenilde Cristina, em São Luís — Foto: Arquivo pessoal

Tradições musicais afro-maranhenses

O curso de licenciatura em música, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), também se preocupou em valorizar a cultura de matriz africana, por meio do projeto “Educação Musical Antirracista”.

Durante 18 meses, os bolsistas do projeto atenderam às oficinas de percussão para jovens e crianças do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCM-MA), nas quais são ensinadas as tradições musicais afro-maranhenses.

Bolsistas do projeto “Educação Musical Antirracista” ministram oficina para os colegas de curso — Foto: Divulgação

Bolsistas do projeto “Educação Musical Antirracista” ministram oficina para os colegas de curso — Foto: Divulgação

De acordo com Renato Castro, professor e diretor do curso de música da UEMA, os discentes tiveram a oportunidade de aprender técnicas musicais afro-brasileiras, em um ambiente onde se predomina a valorização da história, cultura e ancestralidade do povo negro.

“Neste processo, além de preencherem uma lacuna em suas formações como professores de música, também puderam colaborar para estabelecer um diálogo intercultural entre tradições musicais orais e aurais como as afro-brasileiras e as tradições escritas da música ocidental de matriz europeia como é, predominantemente, ensinada nas universidades brasileiras”.

Assim, os futuros professores foram capacitados para ensinar os ritmos, gêneros e estilos musicais afro-maranhenses, de forma teórica e prática, atuando na valorização das culturas de matriz africana.

“Uma vez formados como professores de música conscientes dos problemas de racismo presentes na sociedade brasileira, passaram a atuar nas escolas de educação básica, com muito mais preparo para lidar com a diversidade musical brasileira, principalmente em relação às culturas musicais afro-maranhenses, que são praticamente apagadas das escolas”, afirmou Renato.

Bolsistas do projeto “Educação Musical Antirracista” ministram oficina para os colegas de curso — Foto: Divulgação

Bolsistas do projeto “Educação Musical Antirracista” ministram oficina para os colegas de curso — Foto: Divulgação

Dia da Consciência Negra

Dia da Consciência Negra é considerado feriado pela primeira vez no Maranhão — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Dia da Consciência Negra é considerado feriado pela primeira vez no Maranhão — Foto: Reprodução/Redes Sociais

O dia 20 de novembro celebra a história e a luta do povo negro, além de reforçar a importância do combate às desigualdades raciais.

Segundo Acildo Leite, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e mestre e doutor em Educação, a data foi escolhida por ter sido o dia da morte de Zumbi dos Palmares, grande líder negro que lutou contra a escravidão.

“É o dia em que morreu o negro Zumbi no ano de 1965. Ele lutou contra a escravidão em especial na região do nordeste no Estado de Alagoas. É considerado como símbolo da luta e da resistência dos negros ao regime escravocrata e ao racismo”.

O professor aponta que o Dia da Consciência Negra possibilita o reconhecimento da influência e da presença da cultura de origem africana na formação do povo brasileiro, assim como oportuniza o diálogo e a reflexão acerca das consequências do racismo para a população negra.

“É sempre importante lembrar que a nossa sociedade foi construída por meio do trabalho escravizado, e que no Brasil a escravidão durou mais de 300 anos, e que temos apenas 135 anos de abolição da escravatura”.

No entanto, mesmo com as mudanças e melhorias na representatividade de pessoas negras, ainda há um longo caminho a se trilhar na busca pela igualdade racial e equidade de oportunidades para essa população, segundo Acildo.

“Ainda há uma brutal falta de oportunidades para a população negra e ainda impera o racismo nos espaços do cotidiano, bem como convivemos com as tentativas de apagamento de cultura africana e afro-brasileira. Não podemos continuar omissos a esse enfretamento”, pontuou o mestre e doutor em Educação.

* Sob supervisão de Márcia Carlile, g1 MA


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