Filipe Luís ofereceu ao futebol brasileiro a chance de ver, durante quatro temporadas, um jogador de elite atuando nos gramados do país em altíssimo nível. A sensação era de estar diante de um tipo de jogador que ordena as coisas ao seu redor, dá sentido ao jogo, compreende o que se passa em meio ao caos de uma partida de futebol, como se tivesse uma visão de 360 graus do campo.
Talvez Filipe, em especial na segunda metade da carreira, já não compusesse o perfil do tradicional lateral brasileiro que passa 90 minutos, para cima e para baixo, dando piques pelo corredor do campo num esforço descomunal. É um equívoco dizer que não soubesse ir à linha de fundo e cruzar, mas a marca que ficará de seu jogo será outra: numa era que redefiniu as funções dos laterais, que permitiu diferentes perfis de jogadores atuando na posição, Filipe Luís foi um dos mais bem desenhados protótipos do “lateral construtor”, como costuma dizer Tite. Um lateral que inicia jogadas, um armador que parte do lado esquerdo do campo, capaz de organizar o time por trás dos atacantes. Após sua quinta temporada de Flamengo, ao perceber que o corpo acusava os sinais da passagem do tempo, decidiu se retirar.

Filipe Luís beija taça da Libertadores em Guayaquil — Foto: Divulgação / Flamengo
Filipe Luís beija taça da Libertadores em Guayaquil — Foto: Divulgação / Flamengo
É simbólico o momento em que o jogador rubro-negro anuncia sua despedida. Foi no mesmo dia em que Suárez deu belo passe para um gol do Grêmio, em sua penúltima aparição na arena do tricolor gaúcho. O futebol dos Estados Unidos deverá ser a etapa final de sua carreira. A saída de cena de Filipe Luís aconteceu, também, na mesma quinta-feira em que Vitor Roque, 20 anos mais novo, marcou pelo Athletico-PR. Sua viagem para Barcelona deve acontecer em janeiro.
Um dia antes, Endrick, que tem um ano a menos do que Vitor Roque e 21 a menos do que Filipe, fizera mais do que abrir o caminho da goleada do Palmeiras sobre o América-MG: no único Campeonato Brasileiro que terá jogado integralmente pelo Palmeiras, antes de se mudar para Madri, o jovem de 17 anos foi o propulsor da guinada da equipe. Num jogo aparentemente perdido na casa do então líder do campeonato, iniciou uma reação que transformou uma derrota em 3 a 0 numa vitória por 4 a 3, bateu no peito pedindo que lhe dessem a bola, recolocou seu time na disputa do título e gerou o definitivo abalo na caminhada do Botafogo.

Gol Palmeiras x América-MG Endrick — Foto: Marcos Ribolli
Gol Palmeiras x América-MG Endrick — Foto: Marcos Ribolli
O que une todos estes eventos não é apenas a diferença nas idades. Eles ilustram uma realidade que não é só brasileira, mas comum a todos os países que se viram colocados na periferia do jogo pela globalização. Nosso contato com os jogadores de elite internacional, sejam aqueles que se estabeleceram nas maiores ligas do mundo, ou aqueles que esperamos ver por lá, tornou-se uma eterna contagem regressiva: ou assistimos aos últimos anos de suas carreiras, aproveitando antes que acabe, ou vemos o nascimento de alguns prodígios, desfrutando de cada jogo enquanto calculamos quantos dias faltam para que embarquem rumo à Europa.
Ao concentrar riqueza num reduzido número de clubes e ligas da Europa, a globalização nos privou dos anos de auge destes jogadores de elite. Temos direito a ver o nascimento ou os capítulos finais de carreiras de exceção. E mais: a relação, o vínculo do torcedor brasileiro com os jovens criados em seus clubes é cultivado mais por memórias do que por vê-los celebrando gols e taças pelos times onde nasceram. Tê-los formado gera um pertencimento. Rubro-negros celebram gols de Vinícius Júnior pelo Real Madrid, palmeirenses serão fiéis a Endrick, que também se vestirá de branco. O atacante alviverde, ao menos, parece próximo de ter um campeonato brasileiro para chamar de seu. Se o Palmeiras confirmar o título, este terá a marca do jovem prodígio, o grande fato novo da reta final do torneio.
Quanto aos veteranos, o consolo é a capacidade de jogadores do mais alto padrão internacional de impactarem nosso jogo doméstico. Suárez divide com Hulk, este com 37 anos, o recorde de participações em gols no Brasileiro: marcou 14 vezes e deu dez assistências. Foi o principal motivo de o Grêmio, vindo da Série B, ter se mantido perto do topo da tabela durante a temporada. Já Filipe Luís, que sai de cena justamente por não ter conseguido jogar tantas partidas em 2023, terá para sempre uma marca: foi protagonista da segunda geração mais vitoriosa da história do Flamengo.
Entre chegadas e partidas, o futebol brasileiro lida com sua permanente contagem regressiva.