Presente em sete estádios da Série A, tecnologia do reconhecimento facial avança


Para ter acesso à Ligga Arena, em Curitiba, palco do jogo contra o Athletico, o torcedor do Vasco precisou parar em frente à tela instalada na catraca e passar pelo reconhecimento facial.

O jogo deste sábado (25) foi o primeiro no local com o uso do sistema, o mesmo utilizado desde setembro em São Januário, no Rio. Para o Brasil, o ano de 2023 fica marcado como o do pontapé inicial na adesão à tecnologia. Oito arenas já contam com o recurso, sendo sete na Série A.

Desses estádios, em apenas dois a biometria facial está em pleno funcionamento: na Serrinha, do Goiás; e no Allianz Parque, do Palmeiras.

Além da Ligga Arena e de São Januário, a Ilha do Retiro, o Maracanã, a Fonte Nova e a Arena MRV estão em fase inicial. A previsão é de que atinjam 100% das catracas em 2024.

Outros clubes acenaram com a implementação. Entre eles, o Cuiabá, que realizou teste com alunos de escolas públicas no jogo contra o Corinthians, na Arena Pantanal; e o São Paulo, cuja diretoria visitou o Allianz para conferir a operação e saiu de lá interessada em fazer o mesmo no Morumbi. Caso não consiga visualizar gráfico abaixo, clique aqui.

A tecnologia se tornou mais acessível financeiramente. Os clubes não precisam comprar equipamentos e programas. Ele estão incluídos no serviço, normalmente cobrado através de uma taxa sobre os ingressos vendidos.

— Nós oferecemos a opção de locação, que viabiliza a tecnologia para qualquer clube, não sendo necessário um alto investimento. A solução inclui todo hardware e software necessários — explica Tironi Paz Ortiz, CEO da Imply, responsável pelo reconhecimento facial em São Januário, na Ligga Arena e na Ilha do Retiro.

A Lei Geral do Esporte, sancionada em junho, tornou compulsória a adoção até 2025 em arenas com capacidade igual ou superior a 20 mil pessoas. Mas, para além de ser uma exigência, a leitura facial tem pontos positivos, como o acesso mais rápido ao estádio e o combate ao cambismo.

— Quando instalamos no Allianz, o estádio tinha média de acesso de sete pessoas por minuto. Hoje, ela é de 18, com pico de 27 — explica Ricardo Cadar, fundador da Bepass, que opera a biometria facial da casa palmeirense, da Arena MRV, da Fonte Nova e dos jogos do Flamengo no Maracanã (está em conversas com o Fluminense).

De todas as frentes abertas, porém, a que mais pesou para que a tecnologia se tornasse obrigatória é a de combate à violência. Isso pela possibilidade de cruzamento de dados para identificação de pessoas.

Essa é a base do programa Estádio Seguro, anunciado em setembro pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e pela CBF. Clubes e demais entidades esportivas foram convidados. Ao GLOBO, o órgão citou Flamengo, Fluminense, Vasco, Goiás, Ceará, Fortaleza e Bahia entre os que iniciaram o processo de adesão.

O Estádio Seguro prevê o uso de dados colhidos no momento da compra do ingresso e do acesso ao estádio para identificar foragidos, desaparecidos, pessoas que se envolvam em casos de violência durante o jogo (nas arenas ou nos arredores) e quem praticar preconceito.

Entre o que é coletado estão nome completo, CPF, data de nascimento, setor e portão de entrada, número do tíquete, data e hora do registro do bilhete na catraca, além da biometria facial.

Este uso é sensível e alvo de debates, já que envolve informações pessoais. Há duas semanas, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados divulgou nota técnica exigindo ajustes no projeto para não ferir a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Entre eles, a exclusão de menores de 18 anos, a obrigatoriedade de transparência com os torcedores e que, após o jogo, o sistema do MJSP não mantenha posse do material.

Outro ponto delicado é o risco de erros, os chamados falsos positivos. Principalmente quando se trata de pessoas negras, uma vez que há estudos comprovando o enviesamento dos algoritmos usados para reconhecimento facial.

Ainda não há data de início do projeto. Ele depende da adequação aos requisitos estruturais e tecnológicos e à LGPD. De acordo com o ministério, cada estádio contará com uma sala integrada a um Centro Nacional de Inteligência para Segurança no Esporte, em Brasília, gerido pela pasta.

Uma fase piloto foi realizada no Maracanã em 20 partidas de 2022. De acordo com o MJSP, a falta de um sistema informatizado com biometria facial e validação de dados atrapalhou os trabalhos. Ainda assim, foram identificados dois desaparecidos, dois com impedimento de acesso e 40 procurados pela Justiça.

Atualmente, o Estádio da Serrinha tem recebido a visita de técnicos do governo. Ele participará da nova fase piloto por ser um dos mais avançados em termos tecnológicos e por possuir um fluxo de torcedores menor.

— Este ano não trabalhamos mais com ingresso físico. A pessoa vem só com o rosto — conta Paulo Rogério Pinheiro, presidente do Goiás e dono da Tik+, responsável pela bilhetagem e pelo sistema de reconhecimento facial do estádio. — Nessas visitas, eles já entenderam que não tem como apreender ninguém na catraca. Pode gerar tumulto. Então, vai ser desenvolvido um tablet com software que alerta no momento em que a pessoa (foragida ou com proibição de acesso) passar pela catraca. Quando ela sair da revista, o policial já estará lá para detê-la.

Parceria semelhante existe entre o Allianz Parque e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. De acordo com a pasta, ela já resultou em 38 foragidos capturados, 275 desaparecidos localizados, 53 detidos por descumprimento de medidas cautelares e cinco retidos por impedimento de frequentar estádios.

— Quando os punidos não entram mais no estádio, a gente observa queda dos níveis de violência. Primeiro porque quase sempre são eles envolvidos nas brigas. E, no médio prazo, pela inibição gerada com o fim da sensação de impunidade — defende o promotor Rodrigo Terra, da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor, autor da ação que interditou São Januário e só derrubada após o clube assinar o termo em que se comprometeu, entre outras medidas, a instalar câmeras de reconhecimento facial.

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